14 setembro 2011

esta velha angustia



O Grito, de Edvard Munch


Esta velha angústia,
Esta angústia que trago há séculos em mim,
Transbordou da vasilha,
Em lágrimas, em grandes imaginações,
Em sonhos em estilo de pasadelo sem terror,
Em grandes emoções súbitas sem sentido nenhum.
Transbordou.

Mal sei como conduzir-me na vida
Com este mal-estar a fazer-me pregas na alma!
Se ao menos endoidecesse deveras!
Mas não: é este estar entre,
Este quase,
Este poder ser que...,
Isto.

Um internado num manicómio é, ao menos, alguém,
Eu sou um internado num manicómio sem manicómio.
Estou doido a frio,
Estou lúcido e louco,
Estou alheio a tudo e igual a todos:
Estou dormindo desperto com sonhos que são loucura
Porque não são sonhos.

Estou assim...


Trecho do poema Esta velha angústia, de Álvaro de Campos (o grande Fernando Pessoa).

 




13 setembro 2011

do trabalho de conclusão



Não mais satisfeitos com estudos específicos do fenômeno, os teóricos da Escola de Frankfurt vão remeter as mensagens e efeitos da comunicação de massa para um referencial bem mais amplo, a Sociologia da cultura de massa. E desse gérmen aparecem novas correntes [...]. (Medina, Cremilda)

E dessas correntes busco meu gérmen. Meu gérmen para novas correntes. Busco. Meu gérmen. Meu. Correntes. E assim sigo. Sigo nesse desespero, nesse frenesi, nessa ânsia, que me afeta o juízo, que me hostiliza os nervos e cujo nome você já deve suspeitar: sim, é ela, a monografia. O trabalho que põe fim - ou completa um ciclo, melhor dizendo - a quatro anos e meio de um caminho sinuoso, imprevisto, deleitoso.

Relógio, celular, computador, ampulheta. Rejeito todo e qualquer tipo de medição do tempo. Cada dia é menos um dia e deveria significar mais uma página. Mas não. Que contradição. Resta-me o que? A tensão. E eles não ajudam. Eles, meus companheiros: Hall, Jenkins, Bauman, Canclini, Wolf, Medina, Recuero, Pena, Escosteguy, Kucinski, Tredan, Strauss etc etc. É só confusão.

Me vejo disperso nesse quebra-cabeça de peças desajustadas, à procura do encaixe certeiro, da metodologia, essa bandida, sempre em fuga. Tento me ajustar no turbilhão, mas de miopia afligiu-se meu raciocínio. Tento. Da comunicação descambo para as sociologias, as identidades, os estudos culturais. E me perco, imerso. Contradição me persegue. E as páginas? Em branco estão.



25 agosto 2011

despertar

Cenários desabarem é coisa que acontece. Acordar, bonde, quatro horas no escritório ou na fábrica, almoço, bonde, quatro horas de trabalho, jantar, sono e segunda terça quarta quinta sexta e sábado no mesmo ritmo, um percurso que transcorre sem problemas a maior parte do tempo. Um belo dia, surge o 'por quê' e tudo começa a entrar numa lassidão tingida de assombro. 'Começa', isto é o importante. A lassidão está ao final dos atos de uma vida maquinal, mas inaugura ao mesmo tempo um movimento da consciência. Ela o desperta e provoca sua continuação. A continuação é um retorno inconsciente aos grilhões, ou é o despertar definitivo. Depois do despertar vem, com o tempo, a consequência: suicídio ou restabelecimento.

Trecho de O Mito de Sísifo, de Albert Camus.


17 julho 2011

perdeu-se

tinha muitas certezas e um pouco de tristeza. queria sair e perder o caminho de volta. fugir sem rumo estrada a fora. apavorava-o essa tal alteridade, desaforada utopia. e esse social, uma visita incômoda, irrequieta, reflexo dos encontros inesperados entre os alters, os egos, os eus de si mesmo. percebera que estava encurralado.

um dia saiu e perdeu-se no universo paralelo daquele mosaico complexo. quanto barulho, quanta sandice. desejou o caminho de volta. uma quimera. apagara os traços da estrada curva, cujos vales abocanhavam o pôr-do-sol sem receio e oferecia uma das vistas mais belas do antigo mundo, que ele tanto relegara. percebera, afinal. havia de se contentar onde estava ou arriscar-se na infinitude metamórfica seguindo adiante. preferiu a obscuridade.

achou-se em uma novo contexto, pior que podia imaginar. não tinha para onde fugir. sentou ali e resolvera pôr um fim no martírio. Acordara.

05 julho 2011

Partiram

Enrijeceu-se. Palavras faltavam-lhe. Disposição também. A beleza dos versos e entrelinhas há muito o deixara. Os excessos de criação não mais espantavam o sono profundo. Inspiração tornara-se lenda.

Ruborizava-se nas vãs tentativas. Era tudo rascunho, era tudo rascunho. Lembrava-se das épocas de fartura, o pensamento em plena puberdade imaginativa. Afligia-lhe não o bloqueio produtivo, mas a alma arrefecida.

Restou-lhe o afago da brisa gélida, companheira de cada alvorada, enquanto a fugaz vida insistisse em caminhar.