A jovem senhora completa 50 anos. Em alguns pontos, dizem que a idade só lhe fez bem. Em outros, bem, em outros... Mas a cinquentinha ainda está inteira. Plásticas foram (e são) necessárias, diga-se de passagem, mas ela continua formosa. Suas curvas, muitas curvas, dão forma ao seu eixo monumental. Parece até que foi planejada, cada detalhe desenhado com esmero. “Que arquitetura, que design arrochado”, dizem seus muitos amantes.
O olhar está a contemplar o formoso, risonho e límpido céu que debruça-se sobre suas asas. De seu seio quadrangular, a quinquagenária não se cansa de admirar o vasto horizonte. Nessa data que a deixa sempre tão emotiva, lágrimas escorrem pelo rosto. São muitas, muitas lágrimas, descem contornando sua sóbria face. Lembram-lhe o desenho de um singelo e solitário lago em meio a sequidão de um cerrado rouco, meio torto.
Ali, deitada em seu berço esplêndido, a senhora eterniza suas mais tenras lembranças. Folheia seu diário secreto guardado a sete chaves, relê os desabafos passados, as angústias reprimidas, as alegrias repentinas. De muitos humores, alterna suas expressões, dilacera os paradigmas das quatro estações. Vai da inocência de uma criança ao furor de uma noiva abandonada. Procura o afago dos apaixonados, foge do rancor dos desprezados, se esconde dos boatos, procura a justiça desaparecida.
A cinquentona pensa na vida. Não sabe o que o destino lhe reserva, anseia saber seu futuro. Seu coração ainda bate acelerado, contínuo, intenso, frenético. Sua frequência soa o ritmo dos sonhadores, dos viventes, dos esperançosos, dos benfeitores. Seu coração metafísico, coordenador das emoções, estala, palpita, silencia, dói. A senhora sabe que há algo errado. Seu cérebro está enfermo, a mente sinaliza. Ela sabe, sua intuição assesta. Será um câncer? Um tumor? Uma malignidade sem fim? Quem poderá perscrutar suas entranhas e dispersar essa nuvem negra? “Meus amantes”, ela brada com brilho nos olhos.
A cinquentinha sonha em voar. Voar ao encontro da paz, de mais, muito mais. Sonha com a cura, a mais pura. Ela sabe que tem uma missão, um dever. “Não pode acabar agora, aqui, assim”, reflete. Quer então crescer, ser feliz, ser benquista, ter frutos, e filhos promissores. A jovem senhora quer viver, décadas e décadas e séculos ainda. Mas o destino, ela sabe, não está em suas mãos. Contudo, tem fé que a cada ciclo de 4 anos, algo bom pode acontecer...