25 agosto 2011

despertar

Cenários desabarem é coisa que acontece. Acordar, bonde, quatro horas no escritório ou na fábrica, almoço, bonde, quatro horas de trabalho, jantar, sono e segunda terça quarta quinta sexta e sábado no mesmo ritmo, um percurso que transcorre sem problemas a maior parte do tempo. Um belo dia, surge o 'por quê' e tudo começa a entrar numa lassidão tingida de assombro. 'Começa', isto é o importante. A lassidão está ao final dos atos de uma vida maquinal, mas inaugura ao mesmo tempo um movimento da consciência. Ela o desperta e provoca sua continuação. A continuação é um retorno inconsciente aos grilhões, ou é o despertar definitivo. Depois do despertar vem, com o tempo, a consequência: suicídio ou restabelecimento.

Trecho de O Mito de Sísifo, de Albert Camus.


17 julho 2011

perdeu-se

tinha muitas certezas e um pouco de tristeza. queria sair e perder o caminho de volta. fugir sem rumo estrada a fora. apavorava-o essa tal alteridade, desaforada utopia. e esse social, uma visita incômoda, irrequieta, reflexo dos encontros inesperados entre os alters, os egos, os eus de si mesmo. percebera que estava encurralado.

um dia saiu e perdeu-se no universo paralelo daquele mosaico complexo. quanto barulho, quanta sandice. desejou o caminho de volta. uma quimera. apagara os traços da estrada curva, cujos vales abocanhavam o pôr-do-sol sem receio e oferecia uma das vistas mais belas do antigo mundo, que ele tanto relegara. percebera, afinal. havia de se contentar onde estava ou arriscar-se na infinitude metamórfica seguindo adiante. preferiu a obscuridade.

achou-se em uma novo contexto, pior que podia imaginar. não tinha para onde fugir. sentou ali e resolvera pôr um fim no martírio. Acordara.

05 julho 2011

Partiram

Enrijeceu-se. Palavras faltavam-lhe. Disposição também. A beleza dos versos e entrelinhas há muito o deixara. Os excessos de criação não mais espantavam o sono profundo. Inspiração tornara-se lenda.

Ruborizava-se nas vãs tentativas. Era tudo rascunho, era tudo rascunho. Lembrava-se das épocas de fartura, o pensamento em plena puberdade imaginativa. Afligia-lhe não o bloqueio produtivo, mas a alma arrefecida.

Restou-lhe o afago da brisa gélida, companheira de cada alvorada, enquanto a fugaz vida insistisse em caminhar.

12 março 2011

dos absurdos

excentricidade, extravagância, excepcionalidade, extraordinaridade. eu gosto é do absurdo. do nonsense, do fora de comum, do fora de órbita. do excesso, da demasia. eu gosto é da intensidade. da hipérbole, da metáfora, da catacrese, da sinestesia. eu gosto de Deus.

04 março 2011

Divagações

Nos meandros da vida, da rotina, de toda essa figuração, esvaem-se... delineam-se sobre o antebraço, escorrem por entre os dedos, escoam pela pia. Quando abraçam os fossos sépticos ocultos sob nossos passos, condenados estão. Há que se lamentar, se preciosidade alguma compunham. O fluxo não se inverte, não retrocede, não se mede. Gotas, essas sim, restam aos cantos. Como lembranças esquecidas, marcas presentes para um passado nostálgico e esperança vindoura. Cristalinas, são frágeis, singelas, pueris, efêmeras. As demais, tornam-se manchas quando secam. Fantasmas.