26 maio 2012

esperava, escutava.

não havia ninguém. suas palavras dissipavam-se. como se dissipa um foguete. as chispas, depois de haverem riscado a sua trajetória na noite, somem-se no seio dela, a escuridão retumba, escorre sobre o perfil das casas e das torres; os flancos ermos das colinas suavizam-se, desaparecem. mas, embora hajam desaparecido casas e colinas, a noite está cheia delas; sem cor, sem janelas, existem mais maciçamente, expressando o que a franca luz do dia não pode transmitir - a turbação e suspensão das coisas aglomeradas na terra; confundidas na treva; privadas do alívio que traz a aurora, quando, molhando as paredes de branco e gris, tocando cada janela, alçando a bruma dos campos, descobrindo as vacas vermelhas que pastam tranquilamente, tudo é mais uma vez revelado aos olhos;

[...]

o soco girou-se, abateu-se; ela caía, caía. pois ele tinha ido, pensou - tinha ido matar-se, como ameaçara - arrojar-se debaixo de um caminhão! mas não; ali estava ele; ainda sentado sozinho no banco, com o seu sobretudo puído, as pernas cruzadas, os olhos fixos, falando alto. 

Os homens não devem cortar as árvores. há um Deus. (anotava tais revelações nas costas de envelopes). mudar o mundo. ninguém mata por ódio. torná-lo conhecido (tomou nota). esperava. escutava. [...]


trecho de Mrs. Dalloway (Virginia Woolf)

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