12 abril 2012

estou cansado.

Estou cansado da inteligência.
Pensar faz mal às emoções.
Uma grande reacção aparece.
Chora-se de repente, e todas as tias mortas fazem chá de novo
Na casa antiga da quinta velha.
Pára. meu coração!
Sossega, minha esperança factícia!
Quem me dera nunca ter sido senão o menino que fui...
Meu sono bom porque tinha simplesmente sono e não ideias que esquecer!
Meu horizonte de quintal e praia!
Meu fim antes do princípio!
Estou cansado da inteligência.
Se ao menos com ela se percebesse qualquer coisa!
Mas só percebo um cansaço no fundo, como baixam internas
Aquelas coisas que o vinho tem e amodorram o vinho.

Álvaro de Campos

 

09 março 2012

enquanto o sono não vem



todo dia é assim, enquanto o sono não vem, teço diálogos retóricos com o travesseiro, confidente fiel. enquanto finge acolher os pensamentos mais íntimos, cutuca as feridas ainda não cicatrizadas. versos, estrofes e poemas dão vazão à dor exprimida. e a simplicidade e profundeza das palavras ali rascunhadas atenuam a confusão de ideias, pensamentos e sentimentos. a serenidade vem trazendo a paz e, com ela, chega o sono. é uma pena que o abrir dos olhos na manhã seguinte não deixará resquícios dos pensamentos de outrora. isso aqui ficaria bem melhor.

22 fevereiro 2012

Oscar 2012

Definitivamente, a 84ª edição do Oscar é a premiação da nostalgia, da melancolia, do saudosismo. Os dois filmes mais disputados (O ARTISTA e A INVENÇÃO DE HUGO CABRET, respectivamente com 10 e 11 indicações) são nada mais que uma maravilhosa homenagem ao cinema pioneiro, clássico, mudo e em preto e branco. Enquanto o primeiro (O Artista) adentra no universo memorado fazendo uso da linguagem e técnicas da época (por exemplo, a fotografia no formato standard (1.33:1) e com os frames acelerados), o segundo o venera a partir da linguagem cinematográfica contemporânea, de ponta, fazendo uso de uma das melhores adequações do 3D já vista nas telonas (com muita profundidade e sobreposição de planos, sem precisar jogar nada na cara do espectador).

Impossível a qualquer cinéfilo mais dedicado não se emocionar com as estórias e a nostalgia iminente, naquele conhecido saudosismo do que não se viveu. Afinal, quem nunca quis ter o privilégio de assistir a uma película em p&b e muda no cinema? Ou quem nunca imaginou como seriam os sets de gravação das obras de Méliès? Pois são presentes assim que O Artista e Hugo Cabret nos proporcionam. Merecem, de fato, todo o reconhecimento que estão recebendo. E não são apenas os dois grandes favoritos da noite do dia 26 de fevereiro de 2012 que exalam certo grau de nostalgia e melancolia.

Para ler o post na íntegra, clique aqui.  
  
  

19 fevereiro 2012

do 8 ou 80


pra mim é 8 ou 80 e eu gosto disso. talvez por causa dessa minha pseudo-claustrofobia; estar nas extremidades me dá o conforto da iminência do abismo. qualquer coisa é só pular, sabe? estar no meio é mediano, que é medíocre, que é enfadonho. prefiro o limiar da perda, do absurdo, seja pelo incêndio ou pela nevasca. o problema é quando se estagna em um dos polos. é preciso movimento, é preciso dosagem, é preciso o de mais e o de menos. quem dera fosse fácil, quisera eu saber atenuar o peso, a distância e a dor entre o 8 e o 80. e nessa dicotomia vivo buscando a sonhada serenidade, que é o meio termo, que incorre em um paradoxo. quimera contradição paradigmática.


11 janeiro 2012

dostoiévski

Perambulou sem rumo. O sol já se punha. Uma tristeza especial se apoderara dele nos últimos tempos. Não tinha nada de especialmente agudo ou azedo, mas emanava dele algo de constante, de eterno; fazia pressentir anos sem refúgio, dessa dor fria, mortal; fazia pressentir toda uma eternidade num espaço de um archin. Essa sensação costumava afligi-lo com mais força ao cair da tarde.

dostoiévski. crime e castigo.