Para inaugurar a sessão de crítica a filmes, começaremos com Príncipe da Pérsia: As Areias do Tempo (Prince of Persia: The Sands of Times, 2010), dos estúdios Walt Disney.
É certo que Hollywood já tem uma cultura de adaptações cinematográficas – são incontáveis os filmes produzidos a partir de obras literárias e das famosas
Hq’s -, no entanto, no que diz respeito a jogos eletrônicos, essa proeza ainda não conseguiu ser, de fato, consolidada ou, em outros termos, conquistar produtores. Quanto ao mérito de se produzir boas adaptações, essa é uma questão controversa e suscita uma série de debates. Contudo, há de se convir que é uma arte arriscada e que, infelizmente, sempre deixará alguns decepcionados.
Quem conhece o game
Prince of Persia pôde reconhecer no filme o mundo do jovem guerreiro árabe, com palácios arquitetônicos, desertos e tempestades de areia, além do consagrado herói que corre habilidosamente sobre os telhados, em meio a saltos acrobáticos e impossíveis. O longa dá um show de efeitos especiais e apresenta cenas ricas em detalhes, com uma excelente fotografia de John Seale, que trabalha muito bem a relação entre primeiro e segundo planos. A direção de Mike Newell também não deixa a desejar. O diretor sabe conduzir muito bem as cenas de ação, passando a sensação de imersão e tensão ao espectador, por meio do recurso de tremer a câmera e, por vezes, desfocar a imagem. O uso contínuo, quando não excessivo, do
close acaba por não desagradar. Traz uma nova perspectiva, que visa aproximação.
Jake Gyllenhaal dá vida ao príncipe Dastan, o mítico guerreiro do vídeo game. O ator não convence muito, seu lânguido olhar confere morbidez ao herói, aproximando-o de uma fugaz melancolia. Ao seu lado, está a misteriosa princesa Tamina, vivida pela atriz Gemma Arterton. Tamina é uma das personagens mais atraentes do filme, não apenas pela sua beleza, mas também pela personalidade forte e caráter duvidoso durante boa parte da estória. Apesar de não ter uma atuação brilhante, Gemma é uma das que mais se destaca no longa.

A emblemática do filme só começa quando o exército Persa resolve invadir um vilarejo tido como sagrado, sob a suspeita de que ali estavam sendo desenvolvidas armas para acabar com a Pérsia – uma metáfora clara à Guerra do Iraque. Em seguida, Dastan é vítima de uma emboscada e acaba sendo acusado de matar seu pai adotivo – o rei da Pérsia. Ele, então, passa a lutar por sua sobrevivência, junto com a princesa Tamina. Dastan descobre que ela possui uma adaga ancestral poderosa, que é movida por areias mágicas, capaz de voltar no tempo. Isso o faz concluir que alguém com sangue nobre está atrás dessa poderosa arma – ou seu tio Nizam (Ben Kingsley) ou seus irmãos Tus (Richard Coyle) e Garsiv (Toby Kebbell). Tamina e Dastan, que inicialmente tinham uma relação conflituosa, se apaixonam e resolvem unir forças para desvendar a identidade do assassino do rei e, principalmente, proteger a adaga, cuja integridade ameaça o futuro da humanidade.
O desfecho se torna arrastado e o filme termina, se é que permitem adiantar, da maneira mais fácil possível, com o retorno ao passado e o final feliz para todos – ou quase todos, exceto para o “ex-futuro-assassino” do rei. Para quem procura uma sessão descompromissada e com diversão na certa, Príncipe da Pérsia cumpre o propósito. É uma boa aventura, com o típico herói injustiçado, que apanha muito, mas nunca morre, que foge muito e nunca é pego. O guerreiro que não desiste, prova que é inocente, casa-se com a mocinha e vive feliz para sempre. O roteiro não é inovador, nem as atuações. No mais, por ser uma obra bem feita tecnicamente e com uma estória aparentemente bem amarrada, representa uma evolução na adaptação de games para o cinema.
Nota: