20 junho 2010

Toy Story 3


Quinze anos se passaram desde o lançamento da primeira franquia de Toy Story, o longa que marcou a história do cinema mundial por ser o primeiro produzido exclusivamente por computação gráfica e que abriu caminho para a consolidação da fantástica Pixar Animation Studios. A saga dos bonecos Woody, Buzz Lightyear e seus amigos ganhou, neste ano, um novo filme (Toy Story 3, com direito a versão 3D) que prometia um desfecho à altura. E a Pixar consegue não apenas cumprir com muita genialidade o prometido, como deixar os espectadores com os olhos marejados ao término da aventura que é, sem delongas, a melhor da série - Toy Story (1995) e Toy Story 2 (1999).

Um dos motivos que tornaram o filme tão especial é o fato de que ele não parou no tempo. Andy, o dono dos brinquedos, está com 17 anos e prestes a ingressar na faculdade. Adolescente, ele já não brinca mais com Woody e cia, o que gera descontentamento e desolação nos tão afáveis bonecos. Antes de partir para a nova etapa em sua vida, Andy precisa organizar suas coisas e decidir o que fazer com eles. Ele os coloca em um saco de lixo preto para guardar no sótão, com exceção de Woody que irá com ele para a faculdade. No entanto, uma confusão, cercada de humor, acaba levando-os para uma creche. Lá vão protagonizar uma das melhores cenas do filme, repleta de riso e ação. Vão fortalecer laços, fazer novos amigos, enfrentar inimigos e mostrar que sempre se pode acreditar no melhor das pessoas, quer dizer, dos brinquedos.

Toy Story 3 mexe com os sentimentos, sobretudo de jovens e adultos que cresceram assistindo à sequência e que, de certa forma, se identificam com a estória. A passagem da infância para a juventude, a mudança de gostos e hábitos... assim como Andy, que não brinca mais com os brinquedos que tanto marcaram sua tenra idade. O filme é uma completa sessão de nostalgia, dificilmente algum espectador não recordará, com brilho nos olhos, de épocas passadas. A melancolia se intensifica com a proximidade da despedida. Em suma, é uma gostosa aventura, misto de emoções, muito bem humorada, que aborda temas como amizade, companheirismo, amor até despedida e morte. Novos personagens participam do filme, como a Barbie e o Ken - o "metrossexual de plástico", como é chamado -, que são os responsáveis por boas gargalhadas da plateia.

O longa vibra ao nossos olhos. Muitas cores, muitos planos interessantes e um roteiro invejável. A Pixar consegue humanizar o 'inumanizável' - um filme de animação em que a maioria dos personagens são brinquedos feitos de plástico, madeira ou aço. A empatia que conquista o público é a grande chave do sucesso. O filme apresenta um desfecho que não poderia ser outra coisa se não perfeito. Os brinquedos de Andy ficam, ao final, em boas mãos - e que apesar de não ser necessário, pode abrir caminho a uma possível continuação. O sentimento que fica ao término da sessão é uma vontade de voltar a ser criança e abstrair-se do mundo na construção de um mundo imaginário com seus brinquedos. Mas, mais que isso, é voltar a crer na coisas simples da vida que a tornam tão especial. Um show à parte da Pixar, com direito até a reflexão.


Nota: *****

08 junho 2010

Crítica: Príncipe da Pérsia - As areias do Tempo

Para inaugurar a sessão de crítica a filmes, começaremos com Príncipe da Pérsia: As Areias do Tempo (Prince of Persia: The Sands of Times, 2010), dos estúdios Walt Disney.



É certo que Hollywood já tem uma cultura de adaptações cinematográficas – são incontáveis os filmes produzidos a partir de obras literárias e das famosas Hq’s -, no entanto, no que diz respeito a jogos eletrônicos, essa proeza ainda não conseguiu ser, de fato, consolidada ou, em outros termos, conquistar produtores. Quanto ao mérito de se produzir boas adaptações, essa é uma questão controversa e suscita uma série de debates. Contudo, há de se convir que é uma arte arriscada e que, infelizmente, sempre deixará alguns decepcionados.

Quem conhece o game Prince of Persia pôde reconhecer no filme o mundo do jovem guerreiro árabe, com palácios arquitetônicos, desertos e tempestades de areia, além do consagrado herói que corre habilidosamente sobre os telhados, em meio a saltos acrobáticos e impossíveis. O longa dá um show de efeitos especiais e apresenta cenas ricas em detalhes, com uma excelente fotografia de John Seale, que trabalha muito bem a relação entre primeiro e segundo planos. A direção de Mike Newell também não deixa a desejar. O diretor sabe conduzir muito bem as cenas de ação, passando a sensação de imersão e tensão ao espectador, por meio do recurso de tremer a câmera e, por vezes, desfocar a imagem. O uso contínuo, quando não excessivo, do close acaba por não desagradar. Traz uma nova perspectiva, que visa aproximação.

Jake Gyllenhaal dá vida ao príncipe Dastan, o mítico guerreiro do vídeo game. O ator não convence muito, seu lânguido olhar confere morbidez ao herói, aproximando-o de uma fugaz melancolia. Ao seu lado, está a misteriosa princesa Tamina, vivida pela atriz Gemma Arterton. Tamina é uma das personagens mais atraentes do filme, não apenas pela sua beleza, mas também pela personalidade forte e caráter duvidoso durante boa parte da estória. Apesar de não ter uma atuação brilhante, Gemma é uma das que mais se destaca no longa.



A emblemática do filme só começa quando o exército Persa resolve invadir um vilarejo tido como sagrado, sob a suspeita de que ali estavam sendo desenvolvidas armas para acabar com a Pérsia – uma metáfora clara à Guerra do Iraque. Em seguida, Dastan é vítima de uma emboscada e acaba sendo acusado de matar seu pai adotivo – o rei da Pérsia. Ele, então, passa a lutar por sua sobrevivência, junto com a princesa Tamina. Dastan descobre que ela possui uma adaga ancestral poderosa, que é movida por areias mágicas, capaz de voltar no tempo. Isso o faz concluir que alguém com sangue nobre está atrás dessa poderosa arma – ou seu tio Nizam (Ben Kingsley) ou seus irmãos Tus (Richard Coyle) e Garsiv (Toby Kebbell). Tamina e Dastan, que inicialmente tinham uma relação conflituosa, se apaixonam e resolvem unir forças para desvendar a identidade do assassino do rei e, principalmente, proteger a adaga, cuja integridade ameaça o futuro da humanidade.

O desfecho se torna arrastado e o filme termina, se é que permitem adiantar, da maneira mais fácil possível, com o retorno ao passado e o final feliz para todos – ou quase todos, exceto para o “ex-futuro-assassino” do rei. Para quem procura uma sessão descompromissada e com diversão na certa, Príncipe da Pérsia cumpre o propósito. É uma boa aventura, com o típico herói injustiçado, que apanha muito, mas nunca morre, que foge muito e nunca é pego. O guerreiro que não desiste, prova que é inocente, casa-se com a mocinha e vive feliz para sempre. O roteiro não é inovador, nem as atuações. No mais, por ser uma obra bem feita tecnicamente e com uma estória aparentemente bem amarrada, representa uma evolução na adaptação de games para o cinema.


Nota:

20 abril 2010

A Cinquentinha

A jovem senhora completa 50 anos. Em alguns pontos, dizem que a idade só lhe fez bem. Em outros, bem, em outros... Mas a cinquentinha ainda está inteira. Plásticas foram (e são) necessárias, diga-se de passagem, mas ela continua formosa. Suas curvas, muitas curvas, dão forma ao seu eixo monumental. Parece até que foi planejada, cada detalhe desenhado com esmero. “Que arquitetura, que design arrochado”, dizem seus muitos amantes.

O olhar está a contemplar o formoso, risonho e límpido céu que debruça-se sobre suas asas. De seu seio quadrangular, a quinquagenária não se cansa de admirar o vasto horizonte. Nessa data que a deixa sempre tão emotiva, lágrimas escorrem pelo rosto. São muitas, muitas lágrimas, descem contornando sua sóbria face. Lembram-lhe o desenho de um singelo e solitário lago em meio a sequidão de um cerrado rouco, meio torto.

Ali, deitada em seu berço esplêndido, a senhora eterniza suas mais tenras lembranças. Folheia seu diário secreto guardado a sete chaves, relê os desabafos passados, as angústias reprimidas, as alegrias repentinas. De muitos humores, alterna suas expressões, dilacera os paradigmas das quatro estações. Vai da inocência de uma criança ao furor de uma noiva abandonada. Procura o afago dos apaixonados, foge do rancor dos desprezados, se esconde dos boatos, procura a justiça desaparecida.

A cinquentona pensa na vida. Não sabe o que o destino lhe reserva, anseia saber seu futuro. Seu coração ainda bate acelerado, contínuo, intenso, frenético. Sua frequência soa o ritmo dos sonhadores, dos viventes, dos esperançosos, dos benfeitores. Seu coração metafísico, coordenador das emoções, estala, palpita, silencia, dói. A senhora sabe que há algo errado. Seu cérebro está enfermo, a mente sinaliza. Ela sabe, sua intuição assesta. Será um câncer? Um tumor? Uma malignidade sem fim? Quem poderá perscrutar suas entranhas e dispersar essa nuvem negra? “Meus amantes”, ela brada com brilho nos olhos.

A cinquentinha sonha em voar. Voar ao encontro da paz, de mais, muito mais. Sonha com a cura, a mais pura. Ela sabe que tem uma missão, um dever. “Não pode acabar agora, aqui, assim”, reflete. Quer então crescer, ser feliz, ser benquista, ter frutos, e filhos promissores. A jovem senhora quer viver, décadas e décadas e séculos ainda. Mas o destino, ela sabe, não está em suas mãos. Contudo, tem fé que a cada ciclo de 4 anos, algo bom pode acontecer...

25 março 2010

Querer não querer

Queria o fim. O fim para o novo. Comigo, consigo, conosco. Queria muito este não querer. Queria só poder. Queria só ter.

Queria nem ver. Queria te apagar sem poder dar ctrl+z. Queria deletar essa angústia, mas seria mais sofrer (?). Queria não mais querer. Queria não, não queria querer o querer. Só queria... Mas meu querer não é querido.

"Tanto é pouco, nada diz; não é triste, nem feliz."

Quero. Mas meu querer não é poder, é só perder. Então me deixe nesse devaneio meio poético, meio eclético, meio absurdo, um tanto obscuro.

"Tudo o que eu preciso é uma de chance, de alguns instantes... Sinceramente, ainda acredito em um destino forte e implacável. Tudo o que nós temos pra viver, é muito mais do que sonhei."

Vem, as flores estão no caminho...

28 novembro 2009

Capital de muitos...

Vivacidade. Palavra sugestiva, de muitas conotações, caracteriza a célebre cidade de Brasília. Capital de todos, de muitos, e de ninguém. Cidade adorada, venerada, detestada e muito criticada. Brasília de muitos gostos, de muitos desgostos e de muita história. A Capital consolida a diversidade de sua madre, de seu Brasil, de fato, brasileiro.

No país de muitos povos, muitas raças, muitas cores, muitos amores, uma Capital foi erigida em seu seio. Mítica, ela nasceu de um sonho de um grande homem, recebeu formas de avião, para alguns, e de pássaro, para outros, numa metáfora à vontade de ter asas, de voar, de alçar novos rumos, novos horizontes à promissora nação.

Loucos sonharam, doidos planejaram, malucos realizaram. A loucura deu certo. No cimento que erguia a moderna arquitetura, mãos dos quatro cantos tocaram. Do sul, do Norte, do Nordeste, do Sudeste e, claro, do Centro-Oeste. O sonho, então, tomava forma, a loucura se concretizava. E a mistura estava feita! Mal sabiam que belo cartão postal aquilo que construíam iria virar. E quem imaginaria que vista magnífica o pôr-do-sol traria àquela cidade, que mal acabara de nascer?!

Brasília apresenta diversidade que não se resume a raça e etnia. Ela se apresenta também nos detalhes, no óbvio, no oculto, no âmago da nação. As formosas curvas, a ousada arquitetura, o design inovador, a urbanidade e a desenvolvida civilização compartilham o espaço com o ilustre verde das gramas, as tortuosas e secas árvores, o colorido dos bem cuidados jardins, imersos no vasto e inebriante céu de um azul puro e singelo. Um prato cheio aos amantes da fotografia. Brasília, de diversidade de clima. De sol e chuva, de calor e frio, num único dia. Brasília e seu cerrado, vasta fauna e flora.

Tanta beleza abriga a sede do Poder, o centro político do emergente país, que suja e fere continuamente a imagem da majestosa Capital, com os constantes escândalos políticos. Gera críticas e revoltas por grande parte da população. A Capital que tinha tudo para ser perfeita revela a frágil estrutura, trazendo consigo paradoxos, muitos. Instalada no centro do Distrito Federal, demonstra os contrastes socioeconômicos com cidades bem próximas, numa fiel metáfora do Brasil.

Retrato da Capital… quem poderá defini-lo?! Brasília é como o Brasil, complexo e diverso. De amor e ódio, de luxo e pobreza, de orgulho e vergonha, de vanguarda e de atrasos. Brasília, de multiplicidade, que está prestes a se tornar cinqüentenária. Resta-nos dizer: Viva a Cidade, Viva a Capital. Vivacidade!




Texto e Fotos: Davi de Castro
Crônica produzida para o blog www.caixapretajcd.wordpress.com